Publicado por: analuizarodrigues em: 15 15UTC julho 15UTC 2011
Em janeiro deste ano o país inteiro ficou em choque com as imagens da catástrofe na Região Serrana do Rio de Janeiro. As fortes chuvas provocaram enchentes, deslizamentos de terra, deixaram mais de 300 desaparecidos e mataram oficialmente 905 pessoas. A mobilização da população criou uma rede de solidariedade às vítimas da maior tragédia climática da história do país. Mas hoje, seis meses após aqueles dias e noites de fortes chuvas, as pessoas que se mobilizaram para colaborar com a população seguem suas vidas. E as vítimas da tragédia? Seguem suas vidas também.
Mais do que números ou culpados, o que nos propomos a mostrar é a realidade das pessoas. Pessoas que continuam lá, que perderam família, amigos, suas casas. PESSOAS, não são números, não são dados. São filhos, pais, avós e netos, pessoas que continuam buscando sua dignidade em meio ao que sobrou de suas vidas.
Em Teresópolis, o cenário em bairros atingidos como Campo Grande e Posse é desolador. As marcas dos deslizamentos, enchentes e desabamentos continuam lá. Em grande parte das casas nada foi mexido e as ruas têm o movimento habitual, em meio ao lixo, lama e entulhos que ficaram espalhados por toda a parte e estão cobertos por camadas de lama seca. Paulo Sergio da Costa, caseiro, que viveu 32 anos no bairro Campo Grande, descreveu a lentidão do processo de recuperação do local e contou que o trabalho que foi feito para melhorar as vias e o acesso ao local foi uma iniciativa da associação de moradores que, cansada de esperar, se reuniu para providenciar a retirada de lixo de alguns trechos e colocou cascalhos nas ruas para facilitar o trânsito de pessoas.
Paulo Sérgio, que teve sua casa interditada pela Defesa Civil, faz visitas periódicas ao bairro esperando encontrar melhorias nas condições do local. “Há algumas semanas chegou uma escavadeira da Prefeitura, mas a máquina passa a maior parte do tempo desligada”, falou Paulo Sérgio.
O descaso do poder público com os desabrigados da tragédia voltou a ganhar manchetes em grandes veículos de comunicação, mas o que realmente nos chamou atenção foi a reação dos moradores locais que voltaram a normalidade de suas vidas, mesmo diante daquela paisagem caótica. O que por muitos pode ser visto como frieza. Preferimos chamar de força e fé. A estudante Gleice Correia, 17 anos, anda alguns quilômetros todos os dias entre os escombros para ir à escola e para procurar junto aos órgãos responsáveis por apoio a sua família. “Nós continuamos aqui, fazendo a nossa parte. Esperamos que o poder público ainda venha a fazer a sua,” disse Gleice.
Muitas estradas naquela região ainda estão totalmente destruídas, a energia também não foi restabelecida em muitos pontos. Uma obra de contenção foi iniciada, mas nem mesmo a placa com informações sobre a obra está no lugar correto. Mesmo com todo o descaso público, os moradores ainda sonham em ver a reconstrução do seu bairro. “Acredito muito na recuperação da nossa qualidade de vida e tenho esperanças de que minhas filhas possam, um dia, ver toda beleza que já houve aqui”, falou Otávio Santos, caseiro, mineiro que vive a 26 anos em Teresópolis. Otávio contou ainda, que a única ajuda que recebeu desde a tragédia, veio do seu antigo patrão que atualmente é quem vem dando todo apoio para sua família.
Entre tantas perdas, tantas histórias, entre tantas pessoas que tiveram o rumo de suas vidas completamente modificados, o que mais chama a atenção é a imagem de um senhor de cabeça branca, corpo curvado, bastante sujo de lama, que solitário, vaga pelas ruas dizendo coisas aparentemente sem sentido, afirmando estar colaborando com a recuperação da comunidade. De acordo com moradores, depois da perda de todos os membros de sua família, esse senhor passa os dias repetindo as mesmas frases e tendo as mesmas atitudes do dia da tragédia.
Muitas coisas se perdem pelo caminho, mas a determinação, a fé e a solidariedade, são capazes de se tornar a razão de viver de muitos.